Como decidir melhor hoje olhando para os passados e para os futuros
- Daniel Silva

- 13 de jul.
- 4 min de leitura
Tomar decisões em organizações, empresas, órgãos públicos e organismos multilaterais dentro de um mundo com múltiplas incertezas é uma tarefa muito difícil. Os modelos tradicionais de gestão e tomada de decisão foram criados para um mundo bem mais previsível; eles são focados em metas rápidas e planejamentos rígidos. Essas ferramentas clássicas servem para melhorar ou ajustar planos imediatos e refinar processos passo a passo. Por muito tempo, isso funcionou bem.
Só que o mundo mudou e muda de forma cada vez mais acelerada. Hoje, as organizações enfrentam policrises como crises climáticas, mudanças tecnológicas e instabilidades políticas, que não cabem mais em tabelas ou silos de departamentos. Para evoluirmos, as lideranças precisam entender que os futuros são construídos a partir de decisões feitas no presente.
É aqui que entram o foresight (capacidade de ler sinais de transformação no presente para projetar futuros) , a governança (como o campo das escolhas estratégicas) e o design de futuros (como a capacidade de provocar e projetar o novo). Ao juntarmos essas forças, a proposta é entender e adaptar o modelo de construção de estratégias, serviços e produtos baseado em três fases complementares:
Ancestralidade: Investigar e entender as camadas históricas e as raízes que sustentam e nutrem os sistemas.
Os Futuros: Construir cenários especulativos para permitir o diálogo, desafiar as regras existentes e envolver múltiplos atores na imaginação de transformações sistêmicas.
O Presente: Promover uma autoavaliação ética e o desenvolvimento da empatia, incentivando os stakeholders a testar possibilidades e transformar os sistemas por meio de múltiplos experimentos.

Cone de Futuros atualizado por Romano Theunissen
1 – Resgatar a Ancestralidade: O Cone do Passado
Muitas transformações falham porque tentam construir futuros sem considerar e entender a história do território onde atuam. Antes de olhar para frente, é preciso compreender nossas heranças culturais, políticas e organizacionais: as regras invisíveis, nossas crenças e o nosso passado.
Construir um "Cone do Passado" nos permite navegar e investigar os legados que acumulamos ao longo do tempo: as nossas ancestralidades. Em um país diverso como o Brasil, entender nossas histórias, normas, regras, culturas, relações, comportamentos e elementos ancestrais é parte fundamental do caminho para criar estratégias que façam sentido e tenham alta adesão no presente.
Compreender de onde viemos é necessário para construir uma base sólida para os próximos passos, instigando perguntas essenciais: O que podemos aprender com nossa ancestralidade? Quais erros cometemos no passado? A partir dessa abordagem, resgatamos nossas raízes históricas e revelamos padrões e restrições ocultas. Isso traz luz à nossa "trajetória de dependência", ou seja, os vícios e processos antigos que reproduzimos inconscientemente no presente, permitindo que a liderança decida com consciência o que deve ser mantido, abandonado ou transformado.
2 – Os Futuros: Cenários Especulativos e Diálogos Discursivos
Após compreender o passado, devemos projetar os futuros, expandindo nossa visão temporal para os próximos anos ou décadas. O propósito do design especulativo não é prever de forma determinística um único futuro específico, mas sim materializar múltiplos cenários alternativos (o possível, o plausível e o preferível).
Ao criar cenários especulativos por meio de narrativas ou experiências imersivas, o objetivo é desafiar as regras e as normas vigentes. Isto leva os múltiplos atores como colaboradores, lideranças, comunidades e parceiros a se envolverem em um debate rico para imaginar transformações sistêmicas e caminhos reais de transição. A partir dessas visões de futuro, aplicamos a técnica de backcasting: jogamos essas visões ideais de volta para o presente, traduzindo-as em ações e salvaguardas estratégicas no agora.
3 – O Presente: Múltiplas Abordagens para Realizar os Futuros
Como a governança aplica esse backcasting em um mundo de incertezas na busca pelo futuro preferível? A resposta reside na construção de uma abordagem de portfólio, integrada em uma estrutura espiral que se movimenta de maneira contínua, elástica e adaptável conforme o contexto muda ao longo do tempo.
Transformações profundas e sustentáveis não acontecem através de uma única e grande intervenção. Em vez disso, a governança deve desenhar e gerenciar uma "ecologia de intervenções": múltiplos experimentos e protótipos de menor escala, interconectados e distribuídos pelo ecossistema.
Esses múltiplos experimentos se conectam e transformam os sistemas não por meio de ações isoladas, mas através do efeito cumulativo das diversas intervenções, sejam elas intencionais ou emergentes. Elas interagem entre si, ora se alinhando, ora entrando em conflito, em um entrelaçamento dinâmico de impactos. O resultado combinado dessas interações cria uma direcionalidade clara, empurrando o ecossistema rumo a novas formas de valor. O papel estratégico da governança, portanto, passa a ser a negociação, o aprendizado e o realinhamento contínuo desses experimentos ao longo do tempo em direção ao futuro preferível

Proposta de trajetórias de intervenções no cone de futuros por Zijun Lin, Riccardo Torta e Batrice Villari
Ouvir, imaginar e orientar ecossistemas. A Governança Futura
O grande desafio do nosso tempo não é lançar novidades rápidas para gerar valor imediato. O verdadeiro papel das lideranças estratégicas é compreender os legados que herdamos (nossa ancestralidade), imaginar coletivamente os futuros desejáveis e, a partir disso, orientar trajetórias que pavimentam caminhos sustentáveis para as próximas gerações. Os estudos de futuros e o design especulativo não substituem a gestão tradicional; eles expandem sua sabedoria, profundidade e resiliência para guiar essa transição necessária.
Fontes:



Gostei muito da provocação do artigo. Ela me fez pensar numa pergunta que pode ser que venha antes de todas as outras: a partir de qual visão de mundo uma IA imagina o futuro?
Nas cosmologias africanas, por exemplo: inteligência nunca foi algo isolado. Na tradição bantu, ela nasce da relação, da comunidade e da ancestralidade. Na tradição iorubá, conhecimento também não existe separado da vida. Ele é construído no encontro entre o Orí, o Axé e a experiência compartilhada.
Se toda inteligência aprende a partir de algum repertório, então toda inteligência também carrega uma cosmologia. O desafio então é ampliar o repertório dos mundos que elas aprendem a enxergar.
Tenho pensado muito nisso na minha pesquisa sobre futuros do…