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De onde imaginamos os futuros?

  • Foto do escritor: Thiago Lekan
    Thiago Lekan
  • 30 de jul.
  • 4 min de leitura

Já ouvi, em mais de uma conversa com os mais velhos da minha comunidade de terreiro, que a ancestralidade não se trata daquilo que ficou para trás. Até porque ela continua caminhando conosco ainda no presente.


Na época, ouvi essa frase como um ensinamento, embora, para mim, ainda parecesse uma ideia confusa.


Hoje percebo que ela também carrega uma provocação sobre a forma como compreendemos o mundo.


Porque, se a ancestralidade continua caminhando conosco, talvez passado, presente e futuro não sejam dimensões tão separadas quanto aprendemos a imaginar.


Foi só mais tarde, quando me aproximei dos estudos de Futuros, que comecei a olhar para aqueles ensinamentos de outra maneira. Percebi que eles também carregavam outra forma de compreender o tempo, a memória, a comunidade e o próprio conhecimento.


Foi essa percepção que me levou à confluência entre os estudos de Futuros e os saberes que sustentam a vida nos terreiros, abrindo caminho para um diálogo com outras epistemologias como as africanas, afro-diaspóricas, indígenas e tantas outras formas de conhecimento historicamente pouco presentes nesse campo.


Desde então, uma pergunta continua me acompanhando.


E se o desafio dos estudos de Futuros não estiver apenas em imaginar novos futuros, mas em ampliar as epistemologias a partir das quais os imaginamos?


Os estudos de Futuros vêm ampliando seu diálogo com diferentes áreas do conhecimento. Hoje conversam com arte, regeneração, inteligência cultural, participação social, design e tantas outras perspectivas que enriquecem o campo.


Vejo esse movimento como um passo importante.


Mas, enquanto lia sobre Futuros e aprofundava meu contato com os saberes dos terreiros, comecei a perceber algo que me parecia fundamental.


Existe uma diferença entre ampliar repertórios e ampliar epistemologias. O primeiro significa trazer novos temas para a conversa. Já o segundo significa deslocar o próprio lugar de onde olhamos. Em outras palavras, mudar o ponto de partida da conversa.


Essa diferença parece sutil, mas muda profundamente as perguntas que somos capazes de fazer. Em vez de perguntarmos apenas "quais futuros queremos construir?", passamos também a perguntar: "a partir de quais formas de compreender o mundo estamos imaginando esses futuros?"


Parto da hipótese de que toda forma de imaginar o futuro envolve uma determinada compreensão do tempo. E que essa compreensão, por sua vez, é influenciada pelas epistemologias a partir das quais produzimos conhecimento. 


Foi nesse ponto que surgiu uma inquietação: de que maneira essa relação entre epistemologias e imaginação dos futuros tem sido tratada pelos Estudos de Futuros? 


No meu caso, essa inquietação nasceu no diálogo com os saberes dos terreiros. Mas ela não termina ali. Ao contrário, abriu espaço para uma pergunta maior.


Quantas outras formas de compreender o mundo continuam pouco presentes quando imaginamos os futuros?


Epistemologias africanas, afro-diaspóricas, indígenas e tantas outras tradições do Sul Global não oferecem apenas novos repertórios culturais.


Elas podem oferecer outras formas de compreender o tempo, a memória, o território e a própria relação entre aquilo que herdamos e aquilo que ainda estamos construindo.


Para mim, a questão é simples: toda epistemologia ilumina determinadas possibilidades enquanto deixa outras menos visíveis. Minha hipótese é que diferentes epistemologias possam ampliar as possibilidades de futuros que conseguimos perceber como possíveis.


Entre essas diferentes formas de compreender o mundo, foi na convivência com os terreiros que essa reflexão ganhou contornos mais concretos para mim.


A ancestralidade não aparece apenas como lembrança. Ela permanece presente. Continua orientando relações, influenciando decisões e participando daquilo que ainda está por vir. Essa compreensão reorganiza muito mais do que uma ideia sobre tempo. Ela reorganiza a própria maneira como imaginamos os futuros.


Por isso, algumas perguntas passam a ganhar outra importância: Quem participa da construção dos futuros? Que memórias continuam caminhando conosco? Que relações queremos preservar para aqueles que ainda virão? Que formas de vida estamos fortalecendo quando escolhemos determinado caminho?


Essas perguntas ampliam nosso campo de visão. Vejo nessa uma das maiores contribuições que outras epistemologias podem oferecer aos Estudos de Futuros: formular perguntas que ainda não aprendemos a fazer.


Ainda não sei onde essa reflexão pode nos levar. Mas começo a suspeitar que essas diferentes formas de produzir conhecimento, transmitir memória e sustentar possibilidades possam ser compreendidas como tecnologias de produção de futuros.


Não apresento essa expressão como uma conclusão, mas como uma hipótese de pesquisa. Uma hipótese que nasceu na confluência entre os estudos de Futuros e os saberes dos terreiros, mas que espero ver dialogando com muitas outras formas de compreender o mundo.


Sinto que esse seja justamente o convite. Ampliar as possibilidades de futuros exige também ampliar as formas de imaginá-los. E isso começa também quando mudamos o lugar de onde olhamos.


Nota do autor 

Este ensaio também nasce de aprendizados construídos na tradição oral da comunidade de terreiro da qual participo. Embora esses saberes não componham uma referência bibliográfica convencional, eles constituem parte fundamental do percurso que deu origem às reflexões aqui apresentadas.

Referências

INAYATULLAH, Sohail. Futures Studies: Theories and Methods. In: GLENN, Jerome C.; GORDON, Theodore J. (org.). There's a Future: Visions for a Better World. Madrid: BBVA, 2013.

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

MARTINS, Leda Maria. Performances do Tempo Espiralar: Poéticas do Corpo-Tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

MIGNOLO, Walter D. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options. Durham: Duke University Press, 2011.

RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologies of the South: Justice Against Epistemicide. Boulder: Paradigm Publishers, 2014.

SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô. Petrópolis: Vozes, 2017.




 
 
 

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