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Você tem curiosidade de quê?

  • Foto do escritor: Lilia Porto
    Lilia Porto
  • 12 de ago.
  • 4 min de leitura

Minha lista de curiosidades profundas não para de crescer. Já são mais de mil inquietações. Conhecer a sensação de experimentar psicodélicos, vivenciar a vida indígena, vislumbrar a via láctea no sertão pernambucano, maravilhar-se com com a aurora boreal, com Petra e com o Zigurate de Ur, são algumas. 


Há também curiosidades diárias que não custam um centavo para saciá-las. Recentemente, descobri Michael Peters, o gênio por trás das coreografias de Thriller e Beat It e lá fui atrás de saber mais sobre a vida dele. Ou conhecer mais sobre Toumaï, o nosso mais antigo ancestral recriado pela paleoartista preferida dos cientistas, Elisabeth Daynès.


Grande parte da lista envolve recursos financeiros, então, talvez, nunca experiencie vividamente, mas só em listar já tenho a sensação de saciar o desejo de saber mais. Vou diminuindo a lacuna indo em busca de mais informações, passando horas a fio lendo e assistindo vídeos, mergulhando como se estivesse realmente em algum desses lugares, conhecendo mais sobre um assunto ou experiência.


A teoria da lacuna de informação, de George Loewenstein, explica por que as pessoas se motivam quando percebem uma vazio entre aquilo que sabem e o que gostariam de saber para além. A consciência de que existem informações faltantes cria uma espécie de tensão e de privação cognitiva que podem levar à curiosidade, à investigação e ao aprendizado. Por outro lado, a ausência de curiosidade muitas vezes acontece porque não reconhecemos o que está faltando. 


É por isso que histórias inacabadas, perguntas sem resposta, suspenses, mistérios, incertezas e coisas que nos causam maravilhamento podem nos deixar muito curiosos. Somos motivados pelo espaço desconfortável entre o que sabemos e o que queremos descobrir mais. Em outras situações, essa lacuna pode gerar ansiedade e mecanismos defensivos. Se ela ameaça identidade, segurança, certeza ou crenças profundamente enraizadas, podemos preferir não saber. 


Todos nós nascemos curiosos mas fomos ensinados a não demonstrar. “Fica quieta menina, não seja inconveniente e indiscreta” ou “Você sabia que a curiosidade matou o gato?” são algumas das repreensões que ouvimos ao longo da infância. E foi nessa fase da vida, que nossa curiosidade começou a atrofiar. Nos tornamos mais contidos e ‘educados’. 


Há um declínio drástico e progressivo da nossa curiosidade, causado pela expansão da nossa base de conhecimento ao longo da vida. Uma vez que acreditamos que já sabemos muita coisa, podemos ficar menos curiosos. Esse declínio da curiosidade está associado também ao declínio cognitivo. Quando estamos curiosos, a dopamina e a norepinefrina são liberadas no cérebro e ambas têm efeitos neuroprotetores. Diversos estudos estão comprovando o impacto da curiosidade na nossa saúde, no bem-estar psicológico, na longevidade, na aprendizagem, na criatividade e nas relações humanas.


O comportamento curioso vai então mudando com o tempo. Na realidade, a curiosidade vai se adaptando à evolução dos nossos valores e interesses. Ficamos mais seletivos com as pessoas, cultivando um círculo social mais restrito, demonstrando comportamentos pouco exploratórios. 


O fato é que nascemos curiosos, só estamos desacostumados com esse comportamento. Mas podemos reativar o músculo da curiosidade e trazer mais vivacidade, motivação e saúde para nossa vida! Pra começar, que tal criar a sua própria lista? 


Pegue uma folha e uma caneta e vá escrevendo aquilo que te desperta vontade de saber mais. Pode ser uma nova habilidade, algo que você sempre quis aprender e nunca teve tempo, algum mistério que deseja descobrir. O que você exploraria por prazer ou emoção? O que você gostaria de saber mais sobre aqueles que ama? O que você tem curiosidade sobre si, sobre as pessoas e sobre o mundo? Deixe a imaginação voar, sem se preocupar se um dia vai preencher as lacunas. Também deixe espaço para o inimaginável.


“Mantenha um lugarzinho no seu coração para o inimaginável.”

Mary Oliver


Nas minhas caminhadas diárias de maravilhamento abro espaço para o desconhecido, para a árvore que nunca prestei atenção, para a fachada discreta de uma casa, para rostos que nunca tinha visto. Enquanto contemplo a mangueira centenária, novas curiosidades vão florescendo inquietas por um lugarzinho na lista, sem a necessidade de um dia serem concretizadas.


A curiosidade entrou no meu radar há quase 5 anos, quando comecei a investigá-la profundamente e também a praticá-la e ensiná-la em organizações. A percepção sobre ela vem mudando dentro das empresas, porque é um ativo estruturante para a inovação e para o desenvolvimento humano. É uma das competências mais poderosas para quem deseja aprender, se relacionar bem e inovar. O Fórum Econômico Mundial prevê que alcançará o sexto lugar entre as principais skills até 2030, junto com aprendizagem contínua (lifelong learning)


Para turbinar o músculo da sua curiosidade tenho um convite. Daqui a alguns dias, teremos aqui no Brasil, em pleno Rio, uma oportunidade de reacender essa chama em todas as dimensões – exploratória, cognitiva, relacional, reflexiva e de maravilhamento. O Brasil Futures Forum será o palco para esse esplendor, com um caldeirão de curiosidades e trilhas que irão moldar futuros e que nos permitirão fazer parte dessa construção.


Nós, do O Futuro das Coisas, estaremos lá com a trilha Futuros das Juventudes junto com a LALA e o Instituto Caldeira. O evento é 100% gratuito e acontece entre os dias 22 a 24 de agosto. Bora ser curiosos!


Lilia Porto

Economista, futurista e Fundadora do O Futuro das Coisas


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