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Histórias mais que humanas para (re)encantar nossas presenças e “fazer-com” futuros (im)possíveis

Foto do escritor: Rafael Gregorio
Rafael Gregorio
28 de jul.
9 min de leitura

Tainá Babeto e Rafael Gregório Malaquias



Não estamos apenas diante da ameaça de uma ruína futura. Já vivemos dentro das ruínas produzidas pelo capitalismo, pelo colonialismo e pela separação moderna entre humanidade e natureza. Elas se manifestam na devastação dos territórios, na emergência climática, na extinção de espécies, na precarização das vidas, na ruptura de vínculos comunitários e na transformação de seres, matérias e relações em recursos disponíveis à exploração.


As ruínas, entretanto, não constituem um espaço vazio nem um fim absoluto. Dentro delas persistem conhecimentos, histórias, tecnologias, redes de cuidado e formas de coexistência que demonstram que o mundo capitalista jamais foi o único mundo existente. Outros mundos não estão somente esperando para nascer em um futuro distante. Eles sobrevivem, confluem, respondem e se recriam no presente, embora sejam frequentemente invisibilizados, precarizados ou combatidos.


Estão nas comunidades tradicionais, nos quilombos, aldeias e terreiros; nas redes de solidariedade e nas práticas comunitárias de cuidado; nas experiências agroecológicas; nas tecnologias ancestrais e sociais; nos diferentes modos de parentesco, pertencimento e relação com os territórios. Essas experiências não são modelos puros ou acabados. São mundos vivos, contraditórios, ameaçados e em transformação, mas que demonstram que a realidade nunca coube inteiramente naquilo que o capitalismo declarou possível.


Reconhecer essas presenças exige alargar aquilo que compreendemos como história. Não se trata apenas de incluir outros sujeitos em uma narrativa previamente existente, mas de questionar a própria estrutura que determina quem pode ter história, quais acontecimentos merecem ser narrados, quais presenças são reconhecidas como agentes e quais relações participam da criação do mundo.


Alargar as histórias para alargar os futuros


Em História para além do humano, Ewa Domańska defende que uma redefinição do humano orientada para o futuro precisa transcender as categorias produzidas pela estrutura eurocêntrica da História. Essa estrutura não é uma maneira neutra ou universal de conhecer o passado. Ela está vinculada a uma tradição marcada pelo antropocentrismo, pelo racionalismo cartesiano, pelo secularismo, pelo objetivismo, pela ideia de progresso e por uma compreensão teleológica do tempo.


A História moderna não apenas organiza acontecimentos do passado. Ela também estabelece uma direção supostamente natural para as sociedades. Quando o tempo é representado como uma linha que conduz da tradição à modernidade, do atraso ao desenvolvimento e da natureza à cultura, determinados futuros passam a ser apresentados como inevitáveis. Outros modos de existência são reduzidos a vestígios de um passado que deveria ser abandonado.


Por isso, a disputa pelos futuros envolve necessariamente uma disputa pelas histórias que contamos. Uma História estreita produz um presente igualmente estreito e limita aquilo que conseguimos reconhecer como possível.


Domańska chama a atenção para a diferença entre produzir histórias alternativas e construir alternativas à História. Narrativas sobre mulheres, povos colonizados, ambientes e animais ampliaram decisivamente a historiografia, mas podem continuar operando dentro das categorias que organizaram a História como disciplina. Mesmo abordagens críticas permanecem, muitas vezes, inscritas no desenho epistemológico que separa sujeito e objeto, humanidade e natureza, organismo e matéria.


Reconhecer esses limites exige enunciar e denunciar as práticas e os modos de desencantamento que reduziram a pluralidade das existências a uma única História, a um único mundo e a uma única direção de futuro. Mas a crítica não pode terminar na denúncia. É necessário também renunciar à reprodução dessas estruturas e anunciar outros mundos (im)possíveis: mundos constituídos por diferentes temporalidades, conhecimentos, seres, matérias e modos de existência.


Trata-se de construir, como anuncia a máxima zapatista, “um mundo onde caibam muitos mundos”. Não pela assimilação das diferenças a uma narrativa universal, mas pela criação de condições para que mundos diferentes possam existir, relacionar-se e permanecer diferentes.


Não se propõe, com isso, abandonar a História nem desconsiderar suas contribuições críticas. O desafio é reconhecer seus limites e abrir espaço para conceitos-ponte, abordagens transculturais, formas indígenas e ancestrais de conhecimento e objetos capazes de desobedecer às categorias aplicadas sobre eles. Alargar as histórias — e também as estórias — significa ampliar o próprio mundo.


Cosmoperceber mundos mais que humanos


A ampliação das histórias exige também uma ampliação dos modos pelos quais percebemos a existência.


Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí questiona a universalização de categorias produzidas por uma tradição ocidental que privilegia a visão como principal sentido organizador do mundo. A ideia de cosmopercepção, em lugar de uma cosmovisão exclusivamente visual, possibilita reconhecer que mundos são conhecidos por meio de múltiplos sentidos, experiências corporais, relações, presenças e formas de conhecimento.


Em diálogo com essa formulação, Leda Maria Martins demonstra como tempos, memórias e ancestralidades são inscritos e recriados nos corpos, na voz, nos gestos, nos ritmos, nos ritos e nas performances. Em seu pensamento sobre o tempo espiralar, o passado não permanece atrás de nós como algo encerrado. Ele retorna, atravessa e modifica o presente, sem se repetir de maneira idêntica. O que foi, o que é e o que ainda poderá ser coexistem em movimentos de atualização e recriação.


Mas até onde podemos levar essa ampliação?


Quando pensamos passados, presentes e futuros a partir das cosmopercepções humanas — e não apenas de uma cosmovisão —, já multiplicamos os sentidos e os modos pelos quais o mundo pode ser conhecido. Entretanto, quanto uma cosmopercepção mais que humana poderia potencializar nossa imaginação para escrever outras histórias, reencantar nossas presenças e fazer emergir futuros (im)possíveis?


Essa não é, porém, uma pergunta propriamente nova ou inovadora. Antes de se tornar uma questão para as humanidades contemporâneas, muitos povos, comunidades e mundos já narravam e continuam narrando suas existências a partir de relações entre humanos, ancestrais, animais, plantas, águas, territórios, encantados, objetos e forças mais que humanas. Em práticas de biointeração e confluência, como nomeia Nego Bispo, a vida não é compreendida como realização autônoma de indivíduos ou espécies isoladas, mas como produção compartilhada entre diferentes existências, temporalidades e modos de mundo.


Essas experiências já escrevem histórias que poderíamos chamar de simpoiéticas: histórias produzidas com, e não somente sobre, os seres e as relações que constituem a vida. O desafio talvez não seja inventar uma cosmopercepção mais que humana, mas reconhecer, escutar e aprender com mundos que jamais separaram completamente humanidade e natureza, matéria e espírito, vivos e ancestrais, técnica e território. Trata-se também de compreender como essas formas de conhecimento resistiram às tentativas coloniais de classificá-las como atraso, superstição ou ausência de racionalidade.


A pergunta, portanto, não significa pretender falar em nome de animais, plantas, rios, florestas ou matérias, traduzindo-os integralmente para a linguagem humana. Trata-se de reconhecer que eles não são cenários silenciosos nem objetos passivos da História. Suas existências, ritmos, transformações e respostas participam da formação dos mundos que habitamos.


Cosmoperceber para além do humano pode significar aprender a prestar atenção aos ciclos das águas, aos movimentos das plantas, às migrações dos animais, à composição dos solos, às marcas inscritas nos territórios, às respostas dos organismos e às formas pelas quais objetos e matérias resistem às finalidades que lhes foram impostas. Significa admitir que o mundo não é apenas aquilo que os humanos observam, interpretam ou constroem. O mundo também nos percebe, atravessa, modifica e responde.


Essa ampliação não exclui as tecnologias. Os mundos mais que humanos são igualmente constituídos por ferramentas, máquinas, próteses, redes digitais, algoritmos, sensores e ciborgues. Não existe uma fronteira pura entre natureza e técnica, ancestralidade e inovação, organismo e máquina. Uma semente selecionada por muitas gerações, um sistema de irrigação, uma técnica de manejo do fogo, um instrumento musical, uma linguagem e um ritual também são tecnologias.


A questão não é escolher entre tecnologias ancestrais e digitais, mas perguntar quais mundos elas pressupõem, quais relações produzem, de quais territórios e materiais dependem, quais vidas sustentam suas infraestruturas e para quais futuros contribuem. Uma perspectiva simpoiética não rejeita a técnica, mas recusa a fantasia de uma tecnologia autônoma, desterritorializada e separada das vidas humanas e mais que humanas que tornam sua existência possível.


Presenças e objetos desobedientes


O paradigma apresentado por Domańska é holístico e ecológico. Ele envolve deslocamentos da dominação para a parceria, da competição para a colaboração, da autoafirmação para a integração e das estruturas isoladas para os processos e relações que constituem um todo. Nesse deslocamento, a matéria deixa de ser compreendida como algo vazio, morto e sem agência.


Animais, plantas, objetos e outros não humanos deixam de aparecer somente como cenário ou recurso da ação humana. Tornam-se participantes das relações que compõem o mundo. O não humano, escreve Domańska, converteu-se em uma figura paradigmática do contemporâneo e em um ponto de referência para o futuro. Isso não significa substituir a centralidade humana por uma nova centralidade dos animais, das plantas ou dos objetos, mas reconhecer que o futuro humano é inseparável do futuro dos territórios, das espécies e dos sistemas planetários.


Domańska propõe atenção aos chamados objetos desobedientes: seres, matérias e fenômenos que resistem às categorias estabelecidas pelos pesquisadores, perturbam protocolos e levantam questões em seus próprios termos. Seu estudo frequentemente exige aproximações entre ciências humanas, sociais, naturais e da vida.


Um rio contaminado, uma floresta, uma ossada, uma semente, uma ruína industrial, um objeto ritual ou um território devastado não se deixam reduzir completamente às categorias de recurso, documento, patrimônio ou paisagem. Eles guardam marcas, produzem efeitos, estabelecem relações e participam da formação do presente.

É nesse sentido que podemos aproximar os objetos desobedientes daquilo que chamamos aqui de presenças ancestrais futuristas. Não se trata de um conceito formulado diretamente por Domańska, mas de uma articulação construída a partir de sua abertura para histórias mais que humanas.


Presenças ancestrais futuristas são corpos, memórias, matérias, tecnologias, conhecimentos e relações que desobedecem à temporalidade linear da modernidade. Não permanecem confinadas em um passado encerrado. Atravessam o presente, exigem respostas, orientam responsabilidades e participam da composição de futuros.


Seu caráter ancestral não reside na conservação intacta de uma tradição. A ancestralidade é relação, atualização, conflito, reinvenção e responsabilidade. Seu caráter futurista também não se confunde com o culto à novidade tecnológica. Está na capacidade de abrir possibilidades, produzir diferenças e interromper a reprodução de um futuro único.


“Fazer-com” futuros (im)possíveis


Donna Haraway utiliza a expressão “fazer-com” para caracterizar a simpoiese: a produção coletiva de mundos em que nada se constitui sozinho ou cria autonomamente suas próprias condições de existência. “fazer-com” é reconhecer que seres e mundos se tornam possíveis em relações situadas, materiais, históricas e responsivas.


A simpoiese se contrapõe à fantasia de um sujeito soberano que observa o mundo de fora e projeta sozinho o futuro. Humanos, animais, plantas, microrganismos, objetos, matérias, territórios, tecnologias e ciborgues não apenas ocupam um cenário comum. Participam, de maneiras diferentes e profundamente desiguais, da constituição recíproca de suas possibilidades de vida.


O “fazer-com” não significa harmonia espontânea. Não apaga conflitos, violências, responsabilidades ou relações assimétricas de poder. Nem todos os seres e comunidades são igualmente responsáveis pelas ruínas atuais, embora todos sejam afetados por elas. A interdependência não pode servir para diluir a responsabilidade do capitalismo, do colonialismo, dos Estados, das corporações e dos grupos que lucram com a devastação.


“fazer-com” significa reconhecer dependências sem naturalizar explorações. Significa perguntar quais vidas sustentam outras, quais relações precisam ser interrompidas e quais composições podem favorecer continuidades mais habitáveis.


É nesse ponto que se abrem os futuros (im)possíveis.


Os futuros impossíveis não são necessariamente fantasias inalcançáveis. Muitas vezes, são futuros que não cabem nas categorias do mundo dominante. Uma sociedade que não esteja orientada pelo crescimento econômico permanente parece impossível dentro do capitalismo. Um rio reconhecido como sujeito parece impossível para um direito antropocêntrico. Uma comunidade política composta por humanos, animais, plantas, ciborgues, ancestrais, mortos e futuras gerações parece impossível para as instituições modernas.


O impossível não é, portanto, uma condição absoluta. É uma fronteira política, epistemológica e imaginativa. Aquilo que é considerado impossível para o capitalismo pode ser indispensável para a continuidade da vida. E partes desses mundos declarados impossíveis já existem nas fissuras do presente.


O passado como armazém de possibilidades


Domańska propõe que o conhecimento sobre o passado se torne cada vez mais orientado para o futuro. Seu valor não estaria apenas em explicar o que aconteceu, mas também em contribuir para a continuidade da vida e para a composição de comunidades multiespécies futuras. O futuro das humanidades, nesse sentido, está conectado ao futuro da Terra e da própria vida.


Ao recuperar uma formulação de Susan Buck-Morss, a autora apresenta o passado como um armazém de possibilidades e como um laboratório para investigar condições de coexistência e coabitação.


Esse armazém não contém somente experiências vencedoras ou plenamente realizadas. Guarda possibilidades interrompidas, conhecimentos desautorizados, relações destruídas, projetos derrotados e futuros que não chegaram a acontecer. O passado deixa de ser apenas aquilo que foi. Ele também contém aquilo que poderia ter sido e cujas potências ainda podem ser retomadas, transformadas e combinadas com outras experiências.


Voltar ao passado, portanto, não significa restaurá-lo. Significa procurar nele recursos para responder ao presente e nos preparar para aquilo que pode ser radicalmente diferente. Domańska defende uma história potencial, visionária, inclusiva, holística e multiespecífica, capaz de explorar o potencial não realizado do passado e investigar as condições necessárias para novas formas de socialidade, coletividade e comunidade.


As histórias mais que humanas podem nos munir para reconhecer essas possibilidades e reencantar nossas presenças. Reencantar não significa encobrir a devastação, negar os conflitos ou romantizar conhecimentos ancestrais. Significa restituir presença, agência e significado aos seres e relações que a modernidade declarou passivos, mortos, inferiores ou inexistentes.


Ao discutir a construção de um conhecimento multiespecífico do passado, Domańska recupera a afirmação de Anna Tsing de que a sobrevivência é um projeto colaborativo e exige coordenação entre espécies. Nenhum ser produz sozinho as condições de sua existência.


Fazer outros futuros exige, portanto, “fazer-com”: com as histórias e as estórias; com vivos, mortos e ancestrais; com animais, plantas e microrganismos; com objetos, matérias e tecnologias; com rios, florestas e territórios; com os ciborgues e com as gerações ainda não nascidas.


As presenças ancestrais futuristas não oferecem um modelo pronto ou universal de futuro. Elas ampliam aquilo que reconhecemos como história, presença e mundo. Ao fazê-lo, reabrem as possibilidades de imaginar, habitar e compor um mundo onde caibam muitos mundos — inclusive aqueles que o presente colonial-capitalista insiste em declarar impossíveis.


Referências

  • Domańska, Ewa. A história para além do humano.

  • Galeano, Subcomandante Insurgente. Contra a Hidra Capitalista.

  • Haraway, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno.

  • Martins, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela.

  • Oyěwùmí , Oyèrónkẹ. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero

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