Cultivar futuros: a projetação do amanhã
- Natali Garcia

- 14 de jul.
- 4 min de leitura

O design sempre esteve ligado ao futuro. Desde que existe como campo, ele é a prática de imaginar algo que ainda não existe e trazê-lo para a realidade. Pode ser um objeto, um serviço, uma forma de organizar o trabalho ou o jeito de viver… Só que por muito tempo, e ainda hoje, esse design ajudou a criar realidades que não são boas, mas sim insustentáveis e desiguais. Isso porque o design, historicamente, esteve ligado a um jeito de pensar da Modernidade, movido pela lógica do crescimento a qualquer custo e pela eficiência produtiva industrial. Projetar, nesse contexto, sempre teve a ver com produzir mais rápido, vender e consumir mais.
Mas, há décadas, surgiram movimentos de gente de fora e de dentro do campo do design que buscaram, e buscam, repensar esses modelos e reinventar o que o design pode ser.
Uma ideia mais ampla de design
Para começar, vale empregar a palavra design no seu sentido mais amplo. Não somente aquele design que se preocupa com produtos industriais, muito menos aquele confiado a seletos especialistas. Fazer design hoje tem muito mais a ver com uma capacidade humana de pensar criticamente e colocar a criatividade a serviço dessa reinvenção da realidade como a conhecemos. Nesse sentido, o design (ou projetação, em português) tornou-se mais aberto e transdisciplinar, e vai além das lógicas industriais: ocupa-se também das lógicas sistêmicas e cidadãs. Pode estar a serviço da economia, mas não precisa necessariamente estar.
Fazer design continua sendo projetar futuros, mas também a partir de um outro compromisso, orientado à sustentabilidade regenerativa e à inovação social, em que os processos participativos, de projetar “com” e não “para” as pessoas, não são só necessários, mas fundamentais.
Antecipar não é prever
Antecipar tem a ver com a capacidade dos seres vivos, e não apenas dos humanos, de criar modelos de si e do ambiente para, a partir disso, agirem. Antecipar está intrinsecamente ligado à complexidade da vida e à incerteza que dela decorre
Uma árvore que perde as folhas antes do inverno está antecipando, sem prever nada. É dessa inteligência dos sistemas vivos que a regeneração se inspira. E é por isso que faz diferença distinguir prever de antecipar.
Prever é tentar acertar um retrato do que vai acontecer para depois controlar o caminho até lá. É a forma dominante de lidar com o amanhã: definimos uma meta, montamos um plano e corremos atrás. O futuro vira um alvo fixo. O problema é que a realidade raramente se comporta como desenhamos, e quanto mais nos apegamos ao retrato antigo, menos conseguimos enxergar o que está de fato acontecendo à nossa volta.
Antecipar para a emergência é outra coisa. Em vez de mirar num futuro pronto e estático, criamos condições para que outras realidades possam emergir. É menos tentar alcançar um futuro almejado e mais estar atento ao que já está germinando no presente: as iniciativas, as relações e as transformações que já apontam para modos de vida mais plurais, justos e solidários. Futuros pautados por uma lógica ecossistêmica que preza pela Vida – humana e mais-que-humana.
O que venho pesquisando no Ecotopias
No laboratório Ecotopias, na PUC-Rio, temos explorado como as lógicas dos sistemas vivo – ou eco-lógicas – podem inspirar abordagens e cenários de projeto voltados a essa sustentabilidade regenerativa.
No mestrado, criei uma hibridização entre o Design Estratégico e o Design Regenerativo: o Design Estratégico Regenerativo, sintetizando princípios e movimentos para mapear, prospectar e catalisar capacidades voltadas a futuros regenerativos. Já no doutorado, minha atenção se voltou mais fortemente aos estudos de futuros e da antecipação, sobretudo a uma Antecipação Regenerativa. Essa noção, proposta pelo Prof. Fabio Scarano e pela Cátedra UNESCO de Alfabetização em Futuros do Museu do Amanhã, tem inspirado uma pesquisa que aprofunda a investigação e a experimentação de outras lógicas projetuais, mais conectadas com a intuição, a sensibilidade e a imaginação criativa.
Essas lógicas se apoiam em metáforas e analogias ecológicas (como células-tronco, exaptação, sucessão ecológica, além de sementes, raízes, ciclos etc.), que nos reconectam com a Terra em que vivemos e expandem nosso letramento em futuros e em ecologia. Desse percurso nasceu também uma ferramenta concreta, o Tarot Regenerativo, um conjunto de cartas e um livro que ressignifica a estrutura simbólica do tarot através de uma metáfora ecológica, funcionando como um espelho e um convite ao diálogo, e não como previsão.
Cultivar, mais do que planejar
No fundo, é uma mudança de verbo e de atitude. Saímos de planejar o futuro para cultivar futuros. Cultivar exige paciência, atenção ao que já está vivo no solo e uma ética: estamos comprometidos com equidade e com o florescimento de todos os seres.
Antecipar regenerativamente é, antes de tudo, reaprender a ver o mundo como uma presença viva, e não como um recurso que pode ser explorado seguindo somente as lógicas antropocêntricas. É reconhecer que o futuro não é um lugar aonde vamos chegar, mas um campo que já está sendo cultivado agora, nas escolhas e nas relações que tecemos no presente. E o design, entendido de forma ampla, pode ser um dos modos de cuidar desse cultivo em coautoria com a vida.



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